Um levantamento detalhado conduzido pelo Monitor do Debate Político do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em parceria com a ONG More in Common, trouxe à tona percepções cruciais sobre a base do movimento bolsonarista. A pesquisa, realizada durante o recente ato na Avenida Paulista, neste domingo, revelou que uma parcela significativa, <b>58% dos manifestantes, concorda com a prisão daqueles que cometeram atos de violência ou vandalismo nos eventos de 8 de janeiro de 2023</b>. Este dado, em particular, oferece uma nuance importante sobre as divisões internas e as expectativas de justiça dentro do próprio grupo que frequentemente expressa desconfiança nas instituições.
A complexidade da questão se aprofunda ao desmembrar essa maioria. Dentre os que apoiam a detenção, <b>33% defendem que as penas estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) devem ser integralmente cumpridas</b>, sublinhando um reconhecimento, ainda que parcial, da autoridade judicial em casos de transgressão flagrante. Por outro lado, <b>25% dos entrevistados, embora concordando com a necessidade de prisão, sugerem que as penas deveriam ser reduzidas</b>, indicando um desejo por alguma forma de clemência ou revisão das condenações, talvez motivado por uma percepção de excesso ou perseguição. Estes números demonstram uma heterogeneidade de visões sobre a punição e a legalidade dos atos de janeiro.
Anistia vs. Punição: As Múltiplas Faces do Apoio
Ainda sobre a condenação de quem de fato cometeu violência e vandalismo, a pesquisa mostra que uma parcela considerável, <b>39%, manifestou-se a favor da anistia</b> para os envolvidos. Esta defesa da anistia revela um posicionamento que busca perdoar ou absolver os atos, independentemente da sua natureza violenta, contrastando diretamente com a maioria que apoia alguma forma de prisão. A anistia, neste contexto, seria um instrumento político-jurídico para extinguir os efeitos das condenações, um pleito que tem ganhado força em setores da direita brasileira, mas que esbarra em sérias discussões sobre a responsabilidade por crimes contra o Estado Democrático de Direito. Apenas 3% dos entrevistados não souberam ou não quiseram responder a esta questão complexa.
A Distinção entre 'Envolvidos' e 'Não Participantes Diretos'
A percepção dos manifestantes sobre a justiça se altera dramaticamente quando a discussão se volta para aqueles que foram presos, mas que, segundo a visão dos entrevistados, não participaram diretamente da depredação dos prédios na Praça dos Três Poderes. Neste cenário, a demanda por anistia atinge um patamar esmagador: <b>91% dos entrevistados defendem que a anistia seja concedida</b> a essas pessoas. Essa distinção sugere que, para a maioria dos participantes do ato na Paulista, existe uma hierarquia de culpa ou responsabilidade, onde a mera presença ou a participação não-violenta deveria ser tratada com benevolência máxima.
Mesmo dentro desse grupo, há pequenas divergências: 5% dos manifestantes defendem apenas a redução das penas para os 'não participantes diretos', e um ínfimo 2% ainda concorda com a manutenção das prisões, mesmo sem a ocorrência de atos violentos. Outros 2% não souberam se posicionar. Essa clivagem expõe a dificuldade de traçar linhas claras entre os diferentes níveis de envolvimento e as expectativas de punição ou perdão.
Anistia para Políticos e Figuras Públicas: Um Ponto de Consenso
Quando a questão se volta para os políticos que foram condenados ou estão sendo investigados pela chamada 'trama golpista' – termo que engloba as articulações e incentivos aos atos de 8 de janeiro –, a defesa da anistia ganha ainda mais força. Impressionantes <b>81% dos entrevistados manifestaram apoio à anistia para essas figuras políticas</b>. Essa posição sublinha uma solidariedade política acentuada e um desejo de proteger lideranças alinhadas à sua ideologia, independentemente das acusações que enfrentam.
Neste contexto, é importante contextualizar que o ex-presidente Jair Bolsonaro, por exemplo, embora não condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, como constava na informação original, é alvo de diversas investigações e processos judiciais que incluem alegações de tentativa de golpe e outros crimes. Ele também foi declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A menção do ex-presidente no artigo original como 'condenado' pode refletir a percepção ou a retórica veiculada por alguns segmentos, e não um fato jurídico consolidado. O pedido de anistia para políticos como ele, portanto, reflete um desejo de reversão de condenações e processos, simbolizando a batalha contra aquilo que os manifestantes consideram perseguição política. Outros 7% dos entrevistados concordaram com uma mudança na dosimetria das penas para reduzi-las, enquanto mais 7% aceitaram o cumprimento da prisão para esses políticos.
O Ato 'Acorda Brasil': Convocação, Temas e Tensão Interna
O ato na Avenida Paulista, intitulado 'Acorda Brasil', foi uma iniciativa do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que convocou a mobilização nacionalmente e esteve presente tanto em Belo Horizonte quanto na capital paulista. Inicialmente, a pauta da manifestação, divulgada nas redes sociais pelo deputado, era mais restrita, focando em 'Fora, Lula, Moraes e Toffoli'. Contudo, essa limitação desagradou a uma ala do movimento bolsonarista, que pressionou os organizadores a incluírem também os pedidos de anistia, evidenciando as tensões e negociações internas sobre a agenda política do grupo. A inclusão da anistia expandiu o escopo do protesto, tornando-o um palco para diversas demandas da direita radical.
A escolha dos alvos 'Lula, Moraes e Toffoli' não é aleatória. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é a principal figura da oposição política. Os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli do STF são vistos como inimigos por setores bolsonaristas devido a suas atuações em inquéritos sensíveis, como o das <i>fake news</i> e os relacionados aos atos de 8 de janeiro. Moraes, em particular, é o principal alvo do movimento nos últimos anos, enquanto Toffoli tem sido criticado por sua atuação em investigações que envolvem o caso do Banco Master.
A Disputa Pelo Palácio do Planalto: Flávio Bolsonaro Emerge
A pesquisa do Cebrap também abordou a corrida presidencial de 2026, revelando uma mudança significativa nas preferências dentro da base bolsonarista. A maioria dos manifestantes presentes na Paulista, <b>74%, manifestou preferência pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como o candidato da direita à Presidência da República</b>. Este número representa um salto notável para Flávio, que em um levantamento anterior, realizado em março de 2025 (provavelmente referindo-se a um ato de 2024, dada a data de publicação da notícia), na Praia de Copacabana, somava apenas 6% das preferências, ficando atrás de seu irmão Eduardo Bolsonaro (16%) e da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (21%).
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que não esteve presente na manifestação devido a compromissos na Alemanha, viu sua preferência diminuir para <b>10%</b>, contra 42% no protesto de Copacabana. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também registrou uma queda, sendo citada por apenas 4% dos entrevistados. Outros 9% mencionaram 'outros nomes', 3% disseram não ter preferência e 1% alegou ainda não saber. Essa realocação de apoio sugere um movimento de retorno à 'marca Bolsonaro' na escolha do próximo candidato, talvez buscando uma identificação mais direta com o legado e a família do ex-presidente, em detrimento de figuras emergentes como Tarcísio de Freitas.
Perfil dos Manifestantes: Direita, Conservadorismo e Religião
O estudo traçou um perfil demográfico e ideológico dos participantes do ato. A maioria era composta por homens (62%), e a autodefinição política era predominantemente de 'muito de direita' (77%). Em termos de valores sociais, a maioria dos bolsonaristas se declarou 'muito conservador' em relação a família e sexualidade (67%). A afiliação religiosa também se destacou, com quase metade (49%) se identificando como católicos. Esse perfil reitera a base tradicional do movimento, ancorada em valores conservadores e uma forte identidade de direita, elementos que moldam suas demandas políticas e sociais.
Um ponto de quase unanimidade entre os presentes foi o apoio ao impeachment dos ministros do STF. Para o ministro Alexandre de Moraes, o índice de apoio ao impeachment alcançou <b>95%</b>, refletindo a intensa campanha contra ele por parte do movimento. Já para o ministro Dias Toffoli, o percentual foi de <b>93%</b>, também um número expressivo que demonstra a insatisfação generalizada com o judiciário e, em especial, com as decisões e inquéritos conduzidos por esses ministros.
Metodologia da Pesquisa e Estimativa de Público
A robustez dos dados apresentados reside na metodologia empregada pelo Monitor do Debate Político. Foram realizadas <b>704 entrevistas</b> entre 13h e 17h, cobrindo toda a extensão da Avenida Paulista ocupada pelos manifestantes, com distribuição estratégica em diferentes pontos e horários, garantindo uma amostra representativa. Essa abordagem rigorosa confere alta credibilidade aos resultados, permitindo uma compreensão mais aprofundada das opiniões da base bolsonarista.
Em relação à estimativa de público, o mesmo grupo de pesquisa calculou que o ato na Avenida Paulista contou com <b>20,4 mil pessoas</b>. Comparando com manifestações anteriores contabilizadas pelo Cebrap no mesmo local, este evento registrou o segundo pior público. O posto de menor público foi ocupado por um ato anterior, em agosto (mencionado no texto original como 2025, mas provavelmente referindo-se a um ano anterior, como 2023 ou 2024), que atraiu 37,6 mil pessoas. Considerando a margem de erro de 12%, que representa uma variação de 2,4 mil pessoas para mais ou para menos, o público no horário de pico, às 15h53, pode ter variado entre 18 mil e 22,9 mil participantes. A contagem foi feita a partir de cinco fotos aéreas, tiradas em horários distintos e analisadas com software de inteligência artificial, uma técnica moderna que busca maior precisão na estimativa de grandes aglomerações.
Os dados coletados pelo Monitor do Debate Político do Cebrap oferecem uma janela valiosa para compreender as dinâmicas internas e as evoluções das demandas da base bolsonarista. Revelam um grupo com opiniões divididas sobre a punição aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, mas unificado na defesa da anistia para políticos e na oposição a ministros do STF. Além disso, a preferência crescente por Flávio Bolsonaro para 2026 aponta para uma estratégia de reafirmação do sobrenome nas futuras disputas eleitorais. Para continuar explorando análises aprofundadas sobre o cenário político e social do Brasil, não deixe de navegar por outros conteúdos exclusivos e relevantes aqui no <b>Periferia Conectada</b>. Sua dose diária de informação qualificada e jornalismo sério está sempre à disposição!
Fonte: https://www.folhape.com.br