O legado de mulheres extraordinárias: desvendando a história das pioneiras no Brasil e em Pernambuco

Quadro de Teresa Costa Rego é uma homenagem às mulheres de Tejucupapo - DIVULGAÇÃO

Ao longo da história, inúmeras mulheres desafiaram as convenções sociais e os limites impostos por suas épocas, deixando um legado indelével que merece ser devidamente reverenciado e reconhecido. Sob uma lente histórico-institucional, é fundamental resgatar e celebrar o protagonismo dessas figuras que, com coragem e determinação, abriram caminhos e induziram transformações sociais e políticas. De pensadoras iluministas a aguerridas combatentes e líderes contemporâneas, a jornada feminina é um testemunho de resiliência e inovação, cujas contribuições são pilares para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa.

A luta pela igualdade e pelo reconhecimento feminino não é um fenômeno recente. Suas raízes se estendem por séculos, com notáveis antecipações que marcaram a história mundial. Um dos nomes mais emblemáticos é o de Olympe de Gouges (1748-1793), uma figura central no Iluminismo e na Revolução Francesa. Sua publicação, a <i>“Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã”</i> (1791), foi um marco revolucionário. Inspirada na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, Olympe audaciosamente reivindicava que, se as mulheres tinham o direito de subir ao patíbulo, também deveriam ter o direito de subir à tribuna. Sua visão não apenas ecoava os ideais de liberdade e igualdade, mas os estendia para incluir as mulheres, contestando a exclusão sistêmica delas dos direitos civis e políticos, e lançando as sementes do feminismo moderno no cenário global.

Pioneiras brasileiras: vozes que quebraram o silêncio

No Brasil, a trajetória de protagonismo feminino é igualmente rica e inspiradora, pontuada por mulheres que desafiaram as normas de uma sociedade patriarcal para expressar suas ideias e lutar por seus ideais. Seus atos precursores pavimentaram o caminho para gerações futuras, garantindo que a voz feminina ecoasse e transformasse o cenário nacional.

Literatura e política: Ana Eurídice Eufrosina de Barandas

Ana Belmira da Fonseca Barandas (1806-1863), conhecida pelo nome literário Ana Eurídice Eufrosina de Barandas, emerge como uma das primeiras mulheres a tecer com maestria o fio da literatura com o da política no Brasil. Nascida em Porto Alegre, sua produção literária e política dialogava intensamente com o ideário liberal que floresceu após 1817, um período de efervescência política e social no país. Ela não foi apenas uma poetisa, cronista e novelista, mas também uma das pioneiras da literatura feminina e feminista brasileira, utilizando sua escrita como ferramenta para questionar e propor, abrindo um espaço crucial para o pensamento crítico feminino em uma época dominada por vozes masculinas. Sua obra é um convite à reflexão sobre os papéis da mulher na sociedade oitocentista e sobre as possibilidades de intervenção política através da arte.

A voz abolicionista e o romance inaugural: Maria Firmina dos Reis

Maria Firmina dos Reis (1822-1917), maranhense, rompe barreiras como a primeira romancista negra brasileira. Sua obra mais notável, <i>“Úrsula”</i> (1859), não é apenas um feito literário, mas um poderoso manifesto abolicionista pioneiro. Publicado anos antes da Lei Áurea, o romance de Maria Firmina desnuda a brutalidade da escravidão e questiona a desumanização de pessoas escravizadas, oferecendo uma perspectiva crítica e empática que poucas vozes ousavam apresentar à época. Em uma sociedade onde a mulher, especialmente a mulher negra, era duplamente silenciada, Firmina dos Reis utilizou sua caneta para dar voz aos oprimidos, firmando-se como uma figura central na história da literatura e da luta contra a escravidão no Brasil.

Desbravando o judiciário: Myrthes Gomes de Campos

Avançando para o início do século XX, Myrthes Gomes de Campos (1875-1965) quebrou o paradigma da exclusão feminina no campo jurídico. Formada em 1898 pela Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro (atual Faculdade de Direito da UFRJ), Myrthes se tornou, em 1906, a <b>primeira mulher a exercer a advocacia no país</b>. Sua trajetória é um marco, distinguindo-se das primeiras bacharelas em direito de Pernambuco — Delmira Secundinada Costa, Maria Coelho da Silva Sobrinha e Maria Fragoso Orlando da Silva, que concluíram o curso em 1888 na Faculdade de Direito de Recife, mas não exerceram a profissão. Myrthes Gomes de Campos enfrentou um ambiente predominantemente masculino, abrindo as portas do judiciário para que outras mulheres pudessem, de fato, advogar e atuar na defesa da justiça. Maria Fragoso, embora não tenha advogado, contribuiu significativamente com publicações como <i>“A Questão da Mulher”</i> (1890), que analisava a condição feminina, reforçando a importância do debate intelectual.

Cláusulas pétreas da história feminista: a necessidade do reconhecimento

Essas figuras centrais, com suas ações e pensamentos, tornam-se verdadeiras cláusulas pétreas da história feminista. O termo, emprestado do direito constitucional, refere-se a princípios fundamentais que não podem ser alterados, sublinhando a natureza inquebrável e essencial de suas contribuições. É à conta desse protagonismo histórico que se exige um maior reconhecimento de todas elas, a fim de impedir o silenciamento historiográfico e a invisibilidade feminina, que representam um fenômeno cultural de exclusão simbólica. Ignorar suas histórias é apagar parte da nossa própria identidade e da luta por direitos, perpetuando lacunas em nossa memória coletiva.

Heroínas do Nordeste: resistência e liderança em Pernambuco

A terra pernambucana, em particular, é berço de uma força feminina notável, marcada por atos de bravura e gestão em momentos críticos da história brasileira. A memória historiográfica e heroica deve sempre ter por referência mulheres como Barbara de Alencar e Anna Paes Gonsalves de Azevedo.

Barbara de Alencar: a primeira mulher encarcerada por motivos políticos

Barbara de Alencar (1760-1832), embora cearense de nascimento, teve uma forte vinculação com o núcleo ideológico que irradiava de Pernambuco. Sua vida foi um exemplo de engajamento político e resistência. Apoiadora fervorosa do movimento republicano de 1817, que buscava a independência do Brasil e a instauração de uma república, Barbara foi presa e brutalmente torturada. Ela é historicamente reconhecida como a <b>primeira mulher encarcerada por motivos políticos no Brasil</b>. Sua participação não se limitou a 1817; ela também esteve conectada à Confederação do Equador (1824), consolidando o elo revolucionário nordestino e mostrando que a luta pela liberdade não tinha gênero, mesmo sob as mais severas perseguições. Sua coragem diante da adversidade serve de inspiração para todos que lutam por justiça e liberdade.

Anna Paes Gonsalves de Azevedo: a administradora do Engenho Casa Forte

Muito antes, no século XVII, Anna Paes Gonsalves de Azevedo (1617-1674) foi uma mulher notavelmente à frente do seu tempo. Viúva aos dezoito anos, Anna, de boa educação, herdou e administrou sozinha o Engenho Casa Forte, um dos mais importantes engenhos de cana-de-açúcar de Pernambuco. Em uma era onde a gestão de propriedades rurais era quase exclusivamente masculina, sua habilidade e liderança foram excepcionais. O Engenho Casa Forte tornou-se, inclusive, palco da mais notável vitória na luta contra o domínio holandês do Brasil colonial. No dia 17 de agosto de 1645, as dependências do engenho foram ocupadas por tropas holandesas comandadas por Henrique Van Huss, após serem rechaçadas do Monte das Tabocas. Servindo de fortificação para os invasores, o engenho foi o local de um ataque decisivo das forças pernambucanas, lideradas pelo sargento-mor Antônio Dias Cardoso, que culminou em uma retumbante vitória. A data histórica denomina hoje a principal avenida do bairro do Recife, perpetuando a memória do local e, por extensão, da mulher que o administrava com maestria.

A Batalha do Tejucupapo: o heroísmo feminino em combate

A bravura feminina em Pernambuco também é celebrada na <b>Batalha do Tejucupapo</b>, ocorrida em 24 de abril de 1646, no povoado de Tejucupapo, em Goiana. Conhecida como a <i>“Batalha do Monte das Trincheiras”</i>, este evento marca um feito heroico feminino sem precedentes. Um grupo de soldados holandeses foi enfrentado e vencido por mulheres, tendo à frente quatro Marias — Maria Camarão, Maria Quitória (ou Quitér ia), Maria Clara e Maria Joana —, que mobilizaram suas companheiras à luta. Essas mulheres, armadas com utensílios domésticos e a força de sua resistência, defenderam suas terras e famílias contra os invasores, demonstrando uma ferocidade e organização que surpreenderam o inimigo. A Batalha do Tejucupapo é um símbolo poderoso do papel das mulheres na defesa do território e da cultura brasileira, um lembrete vívido de que a história é moldada por todos, independentemente do gênero.

O legado de Pernambuco: da pioneira à liderança contemporânea na advocacia

É dessa rica pernambucanidade, de origem ou afetiva, de pioneirismo e de valores inquebrantáveis, que devemos cuidar e honrar, priorizando a história feminina no Estado. Essa herança se manifesta na evolução de importantes instituições, como a Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Pernambuco (OAB-PE).

A primeira mulher a figurar nos quadros da OAB-PE foi a advogada Eulália Guimarães de Castro, inscrita em 20 de maio de 1940. Sua inscrição representou um marco significativo, abrindo as portas da profissão legal para centenas de outras mulheres que seguiriam seus passos. A importância dessa data foi institucionalizada e reconhecida com a promulgação da Lei nº 16.287, de 8 de janeiro de 2018, que a incluiu no Calendário Oficial de Eventos e Datas Comemorativas de Pernambuco, garantindo que o pioneirismo de Eulália e de todas as advogadas de Pernambuco fosse celebrado anualmente. Atualmente, o número de advogadas inscritas na OAB-PE alcança mais de 23 mil, superando 50% do quadro associativo, um testemunho do sucesso e da presença feminina no campo do direito.

No contexto atual, o pioneirismo continua a se manifestar através de figuras como Ingrid Zanella Andrade Campos. Mestra e doutora em Direito pela UFPE, Ingrid Zanella fez história ao se tornar a <b>primeira mulher a presidir a OAB-PE</b>. Sua gestão tem se notabilizado não apenas por sua liderança à frente da seccional, mas também por sua atuação como voz influente na advocacia do país, defendendo a valorização da profissão, a ética e a inclusão. Sua trajetória demonstra que o legado das mulheres extraordinárias de Pernambuco e do Brasil segue vivo, inspirando novas gerações a ocupar espaços de poder e decisão, e a continuar a luta por uma sociedade mais justa e igualitária para todos.

A história é um mosaico de vozes, e garantir que as contribuições femininas sejam ouvidas é essencial para a construção de uma narrativa completa e verdadeira. As mulheres extraordinárias, do passado ao presente, não apenas abriram portas, mas moldaram o caminho para que a igualdade de gênero seja, um dia, uma realidade plena. Convidamos você, leitor, a continuar explorando as histórias e os debates que impulsionam o progresso em Periferia Conectada, onde a informação aprofundada e o jornalismo comprometido com a realidade se encontram para iluminar os caminhos da nossa sociedade. Navegue por nossos artigos e descubra mais sobre as personalidades e os temas que transformam o Brasil.

Fonte: https://jc.uol.com.br

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