No coração do interior paulista, a <b>Escola Municipal do Campo Profª Andréa Ferraz de Oliveira</b>, em Itararé, redefiniu o conceito de sala de aula ao transformar seus quintais e áreas verdes em vibrantes espaços de aprendizagem. Este movimento não apenas expandiu as fronteiras físicas da educação, mas também serviu como um poderoso catalisador para o resgate de memórias valiosas, o fortalecimento de vínculos comunitários e a indispensável valorização de saberes que foram transmitidos por muitas gerações. A iniciativa, que culminou na premiação do projeto “Salas Abertas: Reconectar com a Natureza” pelo prestigiado Prêmio Escolas Baseadas na Natureza, ilustra como a conexão profunda com o ambiente natural e as tradições locais pode impulsionar uma pedagogia inovadora e transformadora, gerando impactos duradouros na comunidade escolar e em seu entorno.

Educação para Além dos Muros: O Projeto Salas Abertas

O cerne do projeto “Salas Abertas: Reconectar com a Natureza” reside na premissa de que a aprendizagem não se limita aos espaços convencionais. Ao diversificar os locais para aulas ao ar livre, a escola proporcionou uma experiência educacional mais imersiva e significativa, onde o contato direto com a natureza se tornou um componente curricular essencial. Além da expansão física, a proposta teve como pilares a valorização das ricas tradições locais e a busca por práticas inovadoras que pudessem, de fato, melhorar a qualidade de vida no território. Essa abordagem holística reflete uma crescente percepção sobre a importância da educação ambiental e da sustentabilidade, temas cruciais para o desenvolvimento de cidadãos conscientes e engajados com o futuro de suas comunidades.

O Elo Ancestral: Dona Eusa e as Sementes Crioulas

Um dos pilares mais inspiradores do projeto encontrou sua força na história de <b>Dona Eusa Rodrigues Pereira</b>. Moradora da comunidade e cozinheira da escola por mais de três décadas, Dona Eusa personifica a sabedoria ancestral. Sua vida dedicada à prática e preservação das sementes crioulas — aquelas variedades cultivadas, selecionadas e conservadas pelos agricultores familiares e comunidades tradicionais ao longo de gerações, adaptadas às condições locais e carregadas de história — tornou-se um elo vital entre o conhecimento do passado e as novas gerações. A professora Dynná Ferraz, engajada na iniciativa, enfatiza que “Dona Eusa sempre teve em sua vida a prática da semente crioula e compartilhou com a escola esse conhecimento ancestral”. Este intercâmbio de saberes não só enriqueceu o currículo, mas também reforçou o sentimento de pertencimento dos alunos à sua cultura e território.

O conhecimento sobre as sementes crioulas transcende a prática agrícola; ele se conecta diretamente à problemática da segurança alimentar, um desafio tanto local quanto global. A professora Dynná explica que “a escola abraçou esse conhecimento, que é um dos importantes caminhos para mudar a forma de produzir alimentos, já que a segurança alimentar é um problema local e global que motiva esse projeto”. A dependência excessiva de monoculturas e sementes híbridas ou transgênicas ameaça a biodiversidade e a resiliência dos sistemas alimentares. As sementes crioulas, por sua vez, representam a autonomia alimentar, a conservação da agrobiodiversidade e a adaptação às mudanças climáticas, oferecendo uma alternativa sustentável e culturalmente rica para a produção de alimentos saudáveis e acessíveis.

O Berçário das Plantas: Um Laboratório Vivo de Aprendizagem

A partir da inspiração de Dona Eusa, a escola criou o <b>Berçário das Plantas</b>, um espaço multifuncional que integra horta, pomar e uma casa de sementes. Este ambiente é um microcosmo de práticas sustentáveis, utilizando técnicas tradicionais desenvolvidas pela comunidade quilombola local. A colaboração com a <b>Comunidade Quilombola Fazenda Silvério</b>, especialmente com o líder carinhosamente conhecido como Tio Darci, foi fundamental para a construção de uma casa barreada – uma técnica ancestral de construção com barro, areia, água e fibras vegetais, conhecida por sua sustentabilidade e conforto térmico. Esta estrutura singular foi construída com a participação ativa dos estudantes e hoje abriga a “Casa de Sementes Eusa Rodrigues Pereira”, um tributo vivo à memória e ao legado de Dona Eusa, que, mesmo aposentada, continua visitando a escola e participando de seus eventos, mantendo a chama do conhecimento acesa.

No Berçário das Plantas, as crianças são incentivadas a ir além da teoria. Elas mergulham em um universo de pesquisa e experimentação. A professora descreve o cenário com entusiasmo: “Tem um pomar atrás da casinha barreada, que é a casinha de sementes, e ali fica o fogãozinho a lenha. As crianças brincam com as sementes na cozinha brincante, que fica debaixo do pomar, com o barro e com as plantas. Pertinho tem a horta, onde eles podem plantar e colher, e a gente trabalha com a questão da alimentação saudável.” Este contato direto com o ciclo de vida das plantas, a manipulação da terra e a compreensão da origem dos alimentos não apenas estimulam a curiosidade científica, mas também promovem hábitos alimentares saudáveis e um profundo respeito pela natureza e seus recursos.

Diversidade de Espaços: Além do Berçário

O projeto “Salas Abertas” não se restringe ao Berçário das Plantas. Outros espaços foram cuidadosamente planejados para enriquecer a experiência educacional dos alunos. Um deles é o <b>Canto da Calma</b>, que combina um jardim exuberante com um aconchegante espaço para leitura. Este local serve a um duplo propósito: por um lado, atua como um refúgio para a regulação emocional das crianças, oferecendo um ambiente sereno para o autoconhecimento e a tranquilidade. Por outro, incentiva a leitura de forma prazerosa e em total contato com a natureza, afastando-se da formalidade da sala de aula tradicional. “A gente fez uma biblioteca ligada a um redário e virou um cantinho da calma. As crianças pegam um livro, descem por um escorregador de madeira e vão para o redário. A área já era gramada e ficava livre, mas antes não tinha muito aproveitamento”, detalha Dynná, evidenciando a transformação de um espaço subutilizado em um polo de bem-estar e cultura.

Adicionalmente, a escola conta com um <b>Laboratório de Investigação</b>, onde os estudantes são convidados a se tornarem pequenos cientistas. Neste ambiente dinâmico, eles realizam experimentos práticos que os conectam diretamente com princípios da agronomia e ecologia. Por exemplo, plantam e comparam o desenvolvimento de canteiros com e sem cobertura morta, ou observam os efeitos do húmus na qualidade do solo e no crescimento das plantas. A produção de defensivos orgânicos no próprio laboratório é outra atividade que desperta a consciência ambiental e ensina sobre alternativas sustentáveis para o manejo agrícola. Essas experiências concretas e investigativas aprofundam a compreensão dos alunos sobre os processos naturais, estimulam o pensamento crítico e a capacidade de observação, elementos essenciais para a formação de indivíduos conscientes e inovadores.

O Prêmio como Alavanca de Melhorias e Inspiração Comunitária

O reconhecimento através do Prêmio Escolas Baseadas na Natureza foi um marco para a Escola Municipal do Campo Profª Andréa Ferraz de Oliveira. Segundo a educadora Dynná, o prêmio não foi apenas uma honraria, mas um verdadeiro catalisador de mudanças. “Nossa escola já era enriquecida de espaços naturalizados, mas o prêmio junto com as mentorias, os encontros, as visitas dos especialistas, tornou possível reorganizar os espaços como salas de aula abertas”, relata. Este apoio externo permitiu que a escola não apenas implementasse melhorias significativas em suas áreas externas, mas também consolidasse uma nova metodologia de ensino, mais alinhada com os princípios da educação baseada na natureza.

As transformações resultantes impulsionaram a equipe escolar a ir ainda mais longe. A professora Dynná avalia que o projeto representou “o impulso que precisávamos para melhorar ainda mais nossas práticas, permitindo que aconteçam intervenções mais concretas no nosso currículo, com impacto direto na comunidade, abrindo a possibilidade de ampliar debates para além da nossa comunidade escolar”. Este depoimento sublinha a visão de que a educação transcende os limites da sala de aula, projetando-se na comunidade e gerando discussões relevantes sobre sustentabilidade, cultura e bem-estar. O projeto da escola de Itararé se firma como um modelo inspirador de como a valorização do saber local e a reconexão com o meio ambiente podem revolucionar a pedagogia e fortalecer os laços sociais, provando que a natureza é, de fato, uma das maiores professoras.

Histórias como a da Escola Municipal do Campo Profª Andréa Ferraz de Oliveira nos lembram da potência da educação aliada à cultura e à natureza, especialmente em comunidades rurais e periféricas. Elas demonstram que, com criatividade e engajamento, é possível construir um futuro mais sustentável e equitativo, onde o aprendizado é uma jornada contínua de descoberta e conexão. Se você se inspirou com esta iniciativa e deseja aprofundar-se em outros exemplos de inovação e resiliência nas periferias do Brasil, continue navegando pelo Periferia Conectada. Explore nossas matérias, entrevistas e análises que revelam a riqueza de projetos e a força de comunidades que estão, a cada dia, construindo um país mais justo e conectado.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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