O setor cafeeiro brasileiro, um dos pilares da economia agrícola do país, enfrenta um novo e significativo desafio. A partir de meados de 2027, as restrições impostas pelo Regulamento da União Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) podem erguer barreiras consideráveis para a entrada de café proveniente de pequenos e médios produtores no bloco europeu. Uma análise aprofundada, conduzida pelo projeto Descarbonização e Política Industrial: Desafios para o Brasil, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e divulgada pela Agência Bori, lança luz sobre os potenciais impactos dessa política ambiental europeia nas exportações brasileiras, especialmente para o elo mais fraco da cadeia produtiva: os agricultores familiares e as cooperativas rurais.

A União Europeia, que em 2024 representou mais da metade (51,2%) das exportações de café do Brasil, é um destino crucial para a produção nacional. A iminente implementação do EUDR, portanto, não é apenas uma questão regulatória, mas uma preocupação econômica e social que exige atenção e adaptação por parte dos produtores e do governo brasileiro. O estudo da UFRJ detalha como essa nova legislação, embora tenha um objetivo ambiental legítimo, pode reconfigurar o mercado global de commodities e, paradoxalmente, concentrar a produção nas mãos de grandes players, em detrimento dos pequenos agricultores que são a espinha dorsal de muitas comunidades rurais.

O que é o Regulamento da União Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento (EUDR)?

O EUDR, sigla para <b>European Union Deforestation Regulation</b>, é uma medida ambiciosa da União Europeia que visa combater o desmatamento global associado à produção e ao consumo de determinadas commodities. Entrando em vigor gradualmente, este regulamento representa um marco na política ambiental europeia, que busca desestimular práticas de desmatamento nos países que fornecem produtos para o bloco.

Em sua essência, o EUDR condiciona o acesso ao vasto mercado europeu à comprovação de que os produtos importados não foram cultivados em áreas que sofreram desmatamento após <b>dezembro de 2020</b>. Isso significa que, sem a devida comprovação da origem sustentável e da ausência de desmatamento recente na área de produção, a importação dessas commodities pela UE será vetada. Para os países exportadores, como o Brasil, essa exigência se traduz em um rigoroso processo de verificação e rastreabilidade.

Brasil: País de 'Risco Padrão' e os desafios de rastreabilidade

As pesquisadoras da UFRJ, Kethelyn Ferreira e Marta Castilho, apontam que o Brasil foi classificado pela União Europeia como um país de 'risco padrão'. Esta classificação impõe aos produtores brasileiros a execução de um processo meticuloso de <b>due diligence</b> – ou seja, diligência devida – e rastreabilidade para certificar a origem sustentável de suas safras. Isso inclui a coleta e o envio de dados georreferenciados precisos, que comprovem que a área de cultivo não foi desmatada após a data limite estabelecida. A falha em fornecer tais informações ou a constatação de não conformidade resultará na exclusão do mercado europeu.

A pesquisa da UFRJ estima que a economia brasileira tem uma exposição de 5,3% do total de suas exportações à nova regra. Sete commodities foram identificadas como 'relevantes' no âmbito do EUDR, sendo elas: café, gado bovino, cacau, óleo de palma, borracha, soja e madeira. Entre todas, o café é a que demonstra a maior dependência das compras da União Europeia, sendo a única com mais da metade de sua produção exportada destinada ao continente, o que a torna particularmente vulnerável às novas exigências.

O Impacto Desproporcional em Micro e Pequenos Produtores

Embora o EUDR busque um objetivo ambiental nobre, sua implementação pode gerar um impacto desproporcional. As autoras do estudo da UFRJ destacam que os micro e pequenos produtores de café serão os mais afetados. A razão reside nas limitações técnicas e na complexa questão da regularização fundiária no Brasil. Pequenos agricultores muitas vezes carecem dos recursos, da infraestrutura tecnológica e do conhecimento especializado necessários para implementar sistemas de rastreabilidade robustos e precisos. A digitalização de dados, o georreferenciamento de suas propriedades e a manutenção de registros detalhados podem ser barreiras intransponíveis sem apoio adequado.

A <b>falta de regularização fundiária</b> agrava essa situação. Muitas propriedades rurais no Brasil, especialmente as de menor porte, não possuem documentação completa ou estão inseridas em contextos de informalidade. Essa ausência de títulos de terra claros e atualizados dificulta enormemente a comprovação da legalidade da posse e, consequentemente, a rastreabilidade da produção. Como certificar que uma área não foi desmatada após 2020 se a própria delimitação e o histórico da propriedade não estão devidamente registrados e verificáveis?

Inicialmente prevista para o final de 2024, a entrada em vigor do EUDR foi adiada duas vezes, e agora se dará de forma gradual. Para grandes e médios produtores, as regras começarão a valer em 30 de dezembro de 2026. Já para os micro e pequenos produtores, a data limite é 30 de junho de 2027. Este adiamento oferece um fôlego para adaptação, mas a complexidade dos requisitos exige um esforço coordenado e urgente por parte dos produtores, cooperativas e órgãos governamentais para garantir a conformidade.

O Debate sobre 'Protecionismo Verde' e suas Consequências

A economista Kethelyn Ferreira reconhece o objetivo ambiental legítimo do EUDR: 'reduzir o desmatamento associado às cadeias globais de produção'. No entanto, ela levanta um questionamento crítico: a possibilidade de que o regulamento se configure como uma forma de '<b>protecionismo verde</b>'. Este conceito sugere que propósitos de conservação ambiental podem ser utilizados, intencionalmente ou não, para proteger fazendeiros locais do bloco europeu da concorrência externa. Conforme Ferreira destacou à Agência Brasil, 'Seu desenho e seus efeitos comerciais levantam questionamentos sobre impactos potencialmente discriminatórios para países exportadores, como o Brasil'.

O acesso ao mercado europeu, antes regulado por tarifas e acordos comerciais, passa a depender agora de um cumprimento rigoroso de exigências de rastreabilidade e devida diligência, que na prática se traduzem em <b>barreiras não tarifárias</b> ao comércio. Para países em desenvolvimento, onde as cadeias produtivas podem ser mais fragmentadas e a capacidade de investimento em tecnologia limitada, essas condições geram custos adicionais significativos aos exportadores, afetando sua competitividade e, em última instância, sua capacidade de participar do mercado global.

A Disputa entre Desmatamento Legal e Ilegal

Outra crítica contundente feita pela pesquisa é que o novo regulamento da UE não distingue entre desmatamento legal e ilegal. No Brasil, o Código Florestal permite o desmatamento em determinadas proporções da propriedade rural, desde que cumpridas as exigências legais de Reserva Legal e Áreas de Preservação Permanente. Para a legislação brasileira, essa é uma prática permitida em certas circunstâncias. Contudo, o EUDR, em sua abrangência, não faz essa distinção, considerando qualquer desmatamento posterior a dezembro de 2020 como impeditivo para a importação. Essa abordagem levanta complexas questões de soberania e de reconhecimento das particularidades legislativas de cada nação, criando um atrito potencial entre as leis ambientais brasileiras e as exigências europeias.

Essa controvérsia é ainda mais salientada pelo fato de o mecanismo europeu começar a valer meses após a celebração do <b>acordo de livre comércio Mercosul-UE</b>, que entrou em vigor em 1º de maio. O tratado, que engloba Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, visa eliminar tarifas na circulação de bens e serviços entre os blocos. A coexistência de um acordo de livre comércio com um regulamento que impõe novas e complexas barreiras não tarifárias gera um cenário de incerteza e pode minar os benefícios esperados da liberalização comercial, criando uma contradição no âmbito das relações comerciais e diplomáticas.

Consequências e o Futuro do Café Brasileiro no Mercado Europeu

A economista Kethelyn Ferreira ressalta que, embora não seja possível afirmar categoricamente que o Brasil perderá participação no mercado europeu de café, há fortes indícios de que o EUDR pode favorecer a <b>concentração da produção</b>. Médios e grandes produtores, por terem melhores condições técnicas, financeiras e administrativas, estão mais aptos a implementar os complexos sistemas de rastreabilidade e a comprovar a conformidade de sua produção. Isso poderia levar a uma diminuição da diversidade de fornecedores e a um aumento do poder de mercado de grandes conglomerados.

As implicações vão além da economia. A concentração da produção pode gerar impactos sociais negativos, como a marginalização de pequenos agricultores e o aprofundamento das desigualdades no campo. Para o Brasil, a questão é como apoiar os milhares de pequenos cafeicultores a se adaptarem a essas novas regras, seja por meio de investimentos em tecnologia, programas de regularização fundiária, capacitação ou certificações coletivas. O desafio é complexo, exigindo uma abordagem multifacetada que preserve a participação do Brasil em um mercado estratégico, ao mesmo tempo em que protege a subsistência de seus produtores mais vulneráveis.

O EUDR é um catalisador para a discussão sobre sustentabilidade e responsabilidade ambiental nas cadeias de produção globais. Contudo, é fundamental que as políticas ambientais não se transformem em barreiras comerciais que penalizem indevidamente países em desenvolvimento e seus pequenos produtores. O diálogo contínuo e a busca por soluções colaborativas serão essenciais para mitigar os impactos negativos e garantir que a transição para uma economia mais verde seja justa e equitativa para todos.

O futuro do café brasileiro no mercado europeu dependerá em grande parte da capacidade de adaptação e do apoio que os pequenos cafeicultores receberão para cumprir as novas exigências. Essa é uma questão que perpassa a economia, a política e a sustentabilidade, e que merece a atenção de todos. Continue navegando no Periferia Conectada para se aprofundar em mais análises e discussões sobre os desafios e oportunidades que impactam as comunidades brasileiras e a economia global. Explore nossos artigos e mantenha-se informado sobre as transformações que moldam o nosso futuro.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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