Há exatamente um ano, em julho de 2025, o Brasil alcançou um marco significativo: sua saída do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU). Essa conquista, que sinaliza uma prevalência de subnutrição ou falta de acesso suficiente a alimentos inferior a 2,5% da população, reacendeu a esperança de um país mais justo e com menor insegurança alimentar. Contudo, apesar da celebração, a realidade nacional ainda é complexa, revelando que a jornada para erradicar a fome está longe de ser concluída. Estima-se que cerca de <b>6,5 milhões de brasileiros ainda vivenciam a insegurança alimentar grave</b>, um cenário que exige atenção contínua e políticas públicas robustas.

O que significa sair do Mapa da Fome?

A inclusão e exclusão do Mapa da Fome, gerido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), baseia-se em indicadores técnicos de subnutrição. Quando um país apresenta menos de 2,5% de sua população com risco de não ter acesso regular e suficiente a alimentos para uma vida ativa e saudável, ele é considerado fora do mapa. Para o Brasil, esta é a segunda vez que alcança tal feito, a primeira tendo ocorrido em 2014, após uma década de investimentos em programas sociais e políticas de segurança alimentar. O retorno ao mapa em 2018 e a subsequente saída em 2024 evidenciam a fragilidade das conquistas e a necessidade de estratégias permanentes para blindar a população contra a fome.

Embora o atual patamar de 6,5 milhões de pessoas em insegurança alimentar grave seja o menor da série histórica recente, ele ainda representa uma parcela considerável da população que enfrenta fome diária e privação severa de alimentos. Enquanto a segurança alimentar – o acesso regular, permanente e suficiente a alimentos saudáveis e de qualidade – é garantida a cerca de 77% dos brasileiros, a persistência de milhões em situação de vulnerabilidade extrema sublinha a urgência de uma ação contínua e aprimorada.

A natureza multidimensional da insegurança alimentar

Especialistas ressaltam que o combate à insegurança alimentar vai muito além da mera oferta de alimentos. Lucas de Almeida Moura, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, enfatiza que a manutenção dos resultados obtidos e a erradicação definitiva da fome dependem de uma abordagem <b>intersetorial</b> e da criação de uma estrutura complexa de políticas públicas.

Além da comida: renda, educação e infraestrutura

A visão tradicional de que a fome é apenas uma questão de disponibilidade de comida é limitada. A pesquisa e a prática demonstram que fatores como a garantia de uma renda mínima, o acesso à educação, o saneamento básico (água potável e esgotamento sanitário), a segurança pública e, fundamentalmente, o emprego de qualidade são pilares indissociáveis da segurança alimentar. Uma pessoa pode ter alimentos disponíveis no mercado, mas sem poder de compra, acesso à informação nutricional ou condições higiênicas adequadas, sua segurança alimentar permanece comprometida. A ênfase na intersetorialidade, ou seja, na coordenação de diversas áreas governamentais, é crucial para abordar a complexidade do problema.

O Índice Multidimensional de Insegurança Alimentar (IMUFI)

Para uma avaliação mais precisa, Lucas Moura é o autor de um estudo que desenvolveu o Índice Multidimensional de Insegurança Alimentar (IMUFI, ou MUFII na versão em inglês), publicado na revista Sustainability. Este índice inova ao analisar a fome a partir de <b>12 indicadores de Desenvolvimento Sustentável</b>, permitindo uma comparação anual e uma visão mais abrangente das diversas dimensões da privação alimentar. Os primeiros resultados, abrangendo o período de 2018 a 2022, revelaram uma piora no cenário nacional em 2022 e acentuadas disparidades regionais. Enquanto Santa Catarina apresentou os menores valores médios de insegurança alimentar, Maranhão, Acre e Amazonas registraram os maiores, com a maior parte dos estados do Norte e Nordeste do Brasil superando 50% de insegurança alimentar multidimensional. A atualização contínua deste índice é vital para guiar a formulação de políticas.

Políticas públicas e o Plano Brasil sem Fome

A resposta governamental tem se articulado para consolidar a saída do Mapa da Fome e avançar na erradicação definitiva da miséria. Valéria Burity, secretária Extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), reitera que a meta de longo prazo é garantir a alimentação adequada e saudável como um direito fundamental para toda a população brasileira. Essa visão transcende a assistência emergencial e foca na construção de um sistema de segurança alimentar duradouro.

Pilares da estratégia de combate à fome

A professora Semíramis Domene, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretora do Instituto Fome Zero (IFZ), aponta três movimentos cruciais que foram determinantes para a redução da fome e a saída do mapa:

Em primeiro lugar, o <b>combate direto à desigualdade</b>. Reconhecendo que a acumulação de riqueza e a desigualdade social são raízes profundas da fome, as políticas de emprego e renda foram fundamentais. O Brasil tem registrado o menor índice de desemprego em 13 anos, e a elevação do salário mínimo, com reajustes reais superiores a 6% a partir de 2022, impactou diretamente o poder de compra e a capacidade das famílias de acessar alimentos. Essas medidas fortalecem a base econômica da população mais vulnerável.

Uma segunda frente crucial foi o <b>fortalecimento das políticas públicas de proteção social</b>. Programas como o Bolsa Família e outras iniciativas de transferência de renda condicionada desempenham um papel vital ao garantir um suporte financeiro mínimo às famílias em situação de vulnerabilidade, permitindo o acesso a bens essenciais, incluindo alimentos. Além disso, a articulação com programas de alimentação escolar e cozinhas comunitárias amplia a rede de segurança alimentar, especialmente para crianças e adolescentes em ambientes educacionais.

O terceiro pilar, de grande relevância, é o <b>fomento à agricultura familiar e o fortalecimento dos sistemas alimentares locais</b>. O Plano Brasil sem Fome, por exemplo, não apenas articula medidas econômicas e de proteção social, mas também promove a produção sustentável de alimentos. Ao apoiar o pequeno produtor, o plano garante o abastecimento de alimentos frescos e saudáveis, muitas vezes a preços mais acessíveis, e dinamiza economias locais. A valorização da agricultura familiar é essencial para a resiliência dos sistemas alimentares e para a diversidade nutricional da população, contribuindo diretamente para a segurança alimentar e nutricional.

A prioridade atual, segundo Valéria Burity, é assegurar a inclusão das pessoas que ainda estão em risco de insegurança alimentar grave nas políticas públicas, trabalhando em conjunto com estados e municípios para replicar e fortalecer esses movimentos em nível local, garantindo que nenhum brasileiro seja deixado para trás.

O caminho a seguir: permanência e aprimoramento

A saída do Brasil do Mapa da Fome é, sem dúvida, um motivo para celebrar e um testemunho da eficácia de políticas públicas bem direcionadas. No entanto, é um lembrete vívido de que a luta contra a fome é um processo contínuo e vulnerável a retrocessos. A manutenção desse resultado e a erradicação completa da insegurança alimentar dependem da resiliência das políticas implementadas, da vigilância constante dos indicadores e da capacidade de adaptação a novos desafios socioeconômicos e ambientais.

A sociedade civil, a academia e o setor público devem permanecer engajados na construção de um futuro onde o direito à alimentação seja uma realidade inalienável para todos. É imperativo que as estratégias que nos tiraram do mapa sejam não apenas mantidas, mas aprimoradas, garantindo que o progresso seja irreversível e que as próximas gerações não precisem reviver o flagelo da fome.

Este marco histórico é um ponto de partida, não um destino final. A jornada para um Brasil verdadeiramente sem fome continua, exigindo o compromisso de todos para transformar a promessa da segurança alimentar em uma realidade diária para cada cidadão. Para aprofundar-se em análises sobre desigualdade, políticas sociais e os desafios da nossa sociedade, <b>continue navegando no Periferia Conectada</b>. Somos a sua fonte de informação e debate sobre os temas que realmente importam para o desenvolvimento de nossas comunidades.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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