O cenário político do estado do Rio de Janeiro, tradicionalmente complexo e de grande peso eleitoral, tornou-se um foco central na estratégia de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em um movimento deliberado para reverter os resultados desfavoráveis obtidos em pleitos anteriores, o presidente tem intensificado suas visitas ao estado, marcando presença em eventos públicos ao lado do governador interino Ricardo Couto. A aproximação entre os dois líderes, caracterizada por demonstrações de mútuo apreço, sinaliza uma articulação política que visa fortalecer a base de apoio do governo federal em um dos maiores colégios eleitorais do Brasil, crucial para as próximas disputas.
A quarta aparição pública de Lula ao lado de Couto em um curto intervalo de dois meses sublinha a importância estratégica dessa aliança. Durante esses encontros, as trocas de afagos foram notáveis, culminando em um momento de emoção de Couto, que chegou às lágrimas ao expressar sua gratidão ao presidente. Lula, por sua vez, elogiou a capacidade de Couto de gerar uma expectativa positiva na população, afirmando que “nenhum político eleito criou a expectativa” gerada pelo atual governador interino. Essa fala não apenas valida a gestão de Couto, mas também reforça a narrativa de um governo de transição que busca a estabilidade e a recuperação do estado.
A figura de Ricardo Couto: um contraponto estratégico no Palácio Guanabara
A presença de Ricardo Couto, desembargador e presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), como governador interino desde março, é um fator determinante na dinâmica política atual do estado. Sua ascensão ao Palácio Guanabara ocorreu após a paralisação do processo sucessório pelo Supremo Tribunal Federal (STF), impedindo que o Partido Liberal (PL), principal adversário do governo Lula, mantivesse o comando da máquina estadual. Couto, sem a 'cancha política' de um político de carreira, como ele mesmo frisa, tem sido elogiado por Lula por sua 'sensibilidade do julgador' e pela capacidade de 'consertar' o estado.
A atuação de Couto é percebida como um baluarte contra a hegemonia do PL no Rio, criando um vácuo político que o PT e seus aliados buscam preencher. A judicialização da política estadual, que levou Couto ao cargo, paradoxalmente, abriu uma janela de oportunidade para Lula construir uma nova base de apoio. A população, que saudou Couto com gritos de 'fica' em um dos eventos com Lula, parece responder positivamente a uma gestão que se distancia da polarização partidária, mesmo que interina.
A importância eleitoral do Rio de Janeiro e a estratégia de Lula
O Rio de Janeiro ocupa a terceira posição entre os maiores colégios eleitorais do país, tornando-o um estado vital para qualquer projeto presidencial. Historicamente, o desempenho do Partido dos Trabalhadores (PT) no estado teve altos e baixos. Em 2002, quando Lula venceu sua primeira eleição, o Rio representou um de seus melhores resultados. Contudo, nos anos seguintes, a votação do partido declinou gradativamente, culminando na vitória de Jair Bolsonaro (PL) em 2018, que consolidou forte base de apoio no estado.
Na última eleição presidencial, mesmo com o apoio explícito do então governador Cláudio Castro (PL) a Bolsonaro, Lula conseguiu reduzir significativamente a desvantagem no Rio. Essa performance, embora não resultasse em vitória, demonstrou uma capacidade de recuperação que o PT agora busca ampliar. Com a saída dos aliados de Flávio Bolsonaro (PL) da gestão estadual, o terreno se mostra mais propício para o crescimento da influência governista. A estratégia inclui não apenas a aproximação com Couto, mas também a construção de um palanque robusto com figuras como o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), pré-candidato a governador, que embora de um partido diferente, busca alinhamento com a agenda federal para potencializar sua campanha.
Agenda intensa e declarações contundentes
A intensidade da presença de Lula no Rio é inegável. A quarta visita desde maio equipara o número de aparições no estado ao de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, superando Minas Gerais, visitado duas vezes no mesmo período. Essa dedicação reflete o reconhecimento da complexidade e da relevância do Rio na construção de uma base de apoio sólida para a reeleição.
Os eventos no Rio foram palco para declarações marcantes de Lula. Em sua primeira visita com Couto, ainda em maio, o presidente pediu ao governador interino que atuasse para 'prender todos os ladrões que governaram' o estado, uma alusão direta à triste lista de ex-governadores fluminenses que foram presos ou destituídos. Essa lista inclui tanto antigos aliados, como Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, quanto adversários como Wilson Witzel, Anthony Garotinho e Cláudio Castro, mostrando a amplitude da crise de governança que assolou o Rio. A crítica foi estendida à Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), que Lula chegou a descrever como uma 'milícia organizada', alertando que, caso a Alerj escolhesse o governador interino, 'seria um miliciano', em uma clara referência ao então presidente da casa, Douglas Ruas (PL), hoje adversário de Paes.
Em outros momentos, Lula não poupou elogios a Couto, referindo-se a ele como 'interventor' e desafiando-o a fazer 'em seis meses o que não foi feito em dez anos'. Essa retórica visa consolidar a imagem de Couto como um gestor eficiente e alinhado aos interesses do governo federal, capaz de promover mudanças significativas em um curto espaço de tempo. O programa de refinanciamento das dívidas do estado, o Propag, assinado em junho e um dos motivadores das visitas presidenciais, exemplifica a colaboração entre os entes federativos e a busca por soluções concretas para os problemas do Rio.
A articulação com Eduardo Paes e os desafios eleitorais
A construção de um palanque com Eduardo Paes (PSD) é outra peça fundamental no tabuleiro político de Lula no Rio. Durante o evento Rio2C, em maio, Lula foi explícito: Paes 'precisa ser eleito governador do Rio'. Essa declaração de apoio antecipada visa capitalizar a popularidade do ex-prefeito da capital, que mantém um bom trânsito em diversos setores e tem um histórico de gestão bem avaliado em seu mandato na prefeitura. Contudo, Paes tem focado sua pré-campanha no interior do estado, uma região onde o apoio a Lula tradicionalmente enfrenta mais resistência, enquanto o presidente se concentra nos centros urbanos.
A complexidade do eleitorado fluminense, com suas diversas matizes políticas e ideológicas, representa um desafio constante. A memória dos escândalos de corrupção que envolveram ex-aliados petistas no estado ainda ecoa, exigindo uma estratégia que transmita confiança e renovação. A aposta é que a imagem de integridade de Ricardo Couto, aliada à força do governo federal e à experiência de Paes, possa superar essas barreiras e reposicionar o grupo político de Lula no estado.
Enquanto o Supremo Tribunal Federal delibera sobre a permanência de Couto no cargo, com um julgamento pautado para agosto que pode estender seu mandato até o fim do ano, a janela de oportunidade para a articulação política de Lula no Rio permanece aberta. O presidente brincou que Couto, que 'fala que não é político', 'vai falar igualzinho' a ele com a sequência de visitas, denotando a intenção de politizar a figura do governador interino e convertê-lo em um ativo eleitoral.
A estratégia de Lula no Rio de Janeiro é um movimento calculista e multifacetado, que envolve a construção de alianças, a capitalização de oportunidades e um discurso incisivo sobre a recuperação do estado. A aproximação com Ricardo Couto e o apoio a Eduardo Paes são pilares de uma campanha que busca reconquistar um território eleitoral historicamente importante e decisivo. O sucesso dessa empreitada não apenas consolidará a base de apoio presidencial, mas também redefinirá o cenário político fluminense nos próximos anos. Acompanhe a Periferia Conectada para análises aprofundadas e as últimas notícias sobre os desdobramentos políticos no Rio de Janeiro e em todo o Brasil. Sua voz importa, e nosso compromisso é mantê-lo informado e engajado com o que realmente faz a diferença!
Fonte: https://www.folhape.com.br
