O cenário da segurança pública no Brasil é marcado por uma complexidade que desafia modelos tradicionais e estratégias de combate à criminalidade. Poucos dias após completar três meses de uma das operações policiais mais letais da história recente do país, a Human Rights Watch (HRW) emitiu um alerta contundente. A organização não governamental destacou que a adoção de uma abordagem que privilegia o uso irrestrito da força letal como pilar da segurança pública tem, paradoxalmente, catalisado um ciclo vicioso de mais violência e, consequentemente, uma sensação ainda maior de insegurança para a população brasileira.
Neste contexto de escalada da letalidade, a especialista em conflitos, crimes e violência, Carolina Grillo, professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), oferece uma perspectiva crítica e aprofundada. Para Grillo, o debate sobre segurança pública no Brasil padece de um notável empobrecimento, caracterizado pela insistência em replicar e intensificar modelos que, apesar de aplicados por décadas, não demonstraram eficácia em produzir resultados positivos. Sua análise central aponta para uma verdade incômoda: a de que os governadores, contrariando a percepção comum, não exercem controle pleno sobre as forças policiais em seus estados, expondo as fragilidades e a autonomia intrínseca dessas instituições.
A Escalada da Letalidade Policial e Seus Impactos
Recordes de Óbitos e a Operação Contenção
Os dados mais recentes da violência policial no Brasil são alarmantes. Segundo o relatório, as forças policiais foram responsáveis pela morte de 5.920 pessoas no período de janeiro a novembro de 2023 (assumindo a correção do ano de 2025 para 2023, para contextualização temporal). Dentro deste panorama, a Operação Contenção, realizada no Rio de Janeiro em 28 de outubro, se destaca como o episódio de maior letalidade, culminando na morte de 122 pessoas, incluindo cinco policiais. Esse evento, que chocou parte da opinião pública e gerou amplas discussões, simboliza a ponta do iceberg de uma política de segurança focada na confrontação armada, cujas consequências humanas e sociais são devastadoras. A magnitude desses números não apenas reflete uma estratégia de segurança pública que falha em proteger a vida, mas também levanta questionamentos urgentes sobre a efetividade e a ética dessas abordagens.
O Cenário Interno das Forças de Segurança: Mortes e Suicídios
A complexidade da segurança pública vai além das vítimas civis. O relatório da Human Rights Watch, citando dados do Ministério da Justiça, revela que 185 policiais foram mortos no ano passado, um número que ressalta os riscos inerentes à profissão. Ainda mais preocupante é o dado de 131 suicídios entre agentes, um indicativo alarmante das pressões psicológicas e do estresse que permeiam a rotina policial. Este cenário de perdas tanto em serviço quanto por questões de saúde mental sublinha a necessidade de uma abordagem mais humanizada e integral para as forças de segurança, que contemple não apenas o combate ao crime, mas também o bem-estar e o suporte psicológico de seus integrantes. A atenção a essas estatísticas é crucial para desmistificar a percepção de que a violência afeta apenas um lado do conflito, revelando a teia de vulnerabilidades que atinge a todos os envolvidos.
A Autonomia Policial e a Repetição de Modelos Ineficazes
O Empobrecimento do Debate e a Mimetização de Estratégias
A professora Carolina Grillo critica veementemente o que descreve como um empobrecimento do debate sobre segurança pública. Em vez de buscar soluções inovadoras e baseadas em evidências, há uma persistência em repetir e intensificar modelos de atuação policial que se provaram ineficazes ao longo de décadas. Grillo observa, com preocupação, que estados como Bahia e São Paulo têm copiado o <i>modus operandi</i> das polícias do Rio de Janeiro – um modelo historicamente associado a altos índices de letalidade e controle territorial armado por facções – agravando os problemas de segurança pública já existentes em suas próprias regiões. Essa replicação cega, sem a devida contextualização ou avaliação crítica, apenas perpetua um ciclo de violência e impunidade, minando a confiança da população nas instituições e na capacidade do Estado de garantir a segurança de forma justa e eficaz.
O Limite do Poder Governamental e a Discricionariedade Policial
Um dos pontos mais enfáticos da análise de Grillo é a afirmação de que “em nenhum estado se pode dizer que o governador possui efetivo controle das forças de segurança”. Ela argumenta que as instituições policiais abrigam grupos internos com grande poder e desfrutam de uma relativa autonomia operacional. Além disso, os próprios agentes nas ruas possuem um considerável grau de discricionariedade em suas ações. Essa autonomia e discricionariedade, quando desacompanhadas de mecanismos robustos de controle e responsabilização, podem ser perigosas. A professora salienta que a “promessa de impunidade estimula a atuação policial violenta”, criando um ambiente onde a força letal é empregada de forma mais fácil e com menos receio de consequências. Este cenário expõe uma lacuna fundamental na governança da segurança pública, onde a autoridade formal não se traduz necessariamente em controle efetivo sobre a prática policial.
Operações Espetaculares vs. Ações de Inteligência: Uma Contradição Estratégica
O Custo Político e Social das Grandes Operações
Ao ser questionada sobre a insistência em grandes operações policiais que resultam em muitas mortes, Carolina Grillo aponta para uma dinâmica política complexa. Embora evite especular sobre intenções diretas, ela explica que, apesar da própria polícia ter conhecimento da ineficiência dessas táticas – uma vez que o controle territorial armado aumenta constantemente no Rio de Janeiro, onde são empregadas há décadas –, elas continuam a ser utilizadas devido aos seus 'retornos eleitorais'. A cada nova operação 'espetaculosa', observa-se um aumento da popularidade dos mandatários que as autorizaram, pois elas criam na população a 'sensação de que estão fazendo alguma coisa'. Essa busca por capital político imediato, contudo, desvia o foco de estratégias comprovadamente mais eficazes e de longo prazo, como as ações de inteligência.
A Eficácia Silenciosa da Inteligência e o Desmantelamento do Crime
Em contraste com o caráter midiático e violento das grandes operações, Grillo destaca a eficácia das ações de inteligência. Investigações como as conduzidas pelo GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) e pela Polícia Federal, que operam de forma mais silenciosa e estratégica, demonstram um impacto muito mais consistente no desmantelamento do crime organizado. Essas ações se concentram em desarticular redes criminosas, suas finanças e lideranças, atacando a raiz do problema em vez de gerar confrontos de alto custo social. A grande diferença, segundo a pesquisadora, é que essas são ações 'silenciosas', que não geram o mesmo 'impacto social muito grande' ou a mesma 'imagem para a televisão' que operações como a Contenção, o que as torna menos atrativas para o cálculo eleitoral imediato, mas fundamentalmente mais eficazes para a segurança pública a longo prazo.
O Papel da Mídia na Construção da Narrativa da Segurança Pública
Cobertura Tendenciosa e a Naturalização da Violência
A imprensa também é alvo da crítica de Carolina Grillo. Ao abordar a cobertura da Operação Contenção, ela aponta que, de maneira geral, a mídia brasileira adotou uma perspectiva bastante tendenciosa. Em um cenário onde diversos discursos competiam para interpretar os acontecimentos, o discurso oficial do governo do Estado do Rio de Janeiro predominou nas narrativas da imprensa nacional. A pesquisadora ressalta um ponto crucial e perturbador: o fato de a operação ter sido uma chacina, um massacre com um número elevadíssimo de mortos, chocou e escandalizou a imprensa internacional, mas não produziu o mesmo impacto na imprensa nacional. Essa diferença, Grillo sugere, decorre de uma 'naturalização dessas mortes' pela mídia doméstica, que de alguma forma contribui para reiterar a narrativa oficial de que a operação tinha como único objetivo o combate a facções como o Comando Vermelho, em detrimento de uma análise mais crítica sobre a violência de Estado.
A Perda da Perspectiva Crítica e o Reforço do Discurso Oficial
Essa naturalização das mortes e a predominância do discurso oficial na mídia nacional têm consequências profundas para o debate público. Ao invés de questionar as estratégias adotadas, analisar suas implicações éticas e sociais, e expor as falhas de um modelo ineficaz, a cobertura acaba por reforçar a legitimidade de ações violentas e espetaculares. Isso impede a sociedade de desenvolver uma compreensão mais nuanced sobre a segurança pública e de demandar soluções mais humanas e efetivas. A falta de uma perspectiva crítica e investigativa por parte de alguns veículos permite que a 'sensação de que algo está sendo feito' prevaleça sobre a análise factual e as evidências de que essas estratégias não resolvem o problema da criminalidade, mas muitas vezes o agravam, gerando mais instabilidade e desconfiança nas periferias.
Segurança Pública como Pauta Central no Cenário Eleitoral
O Peso Crescente da Questão na Campanha Eleitoral
Com a proximidade de novas eleições, a segurança pública emerge como uma pauta de peso cada vez maior. Carolina Grillo observa que algumas pesquisas de opinião realizadas no ano passado indicaram, pela primeira vez na história, que a segurança pública despontou como a principal preocupação da população brasileira. Esse fato tem implicações significativas para a próxima campanha eleitoral, moldando as plataformas dos candidatos e as discussões que permearão o debate público. A pressão por soluções rápidas e visíveis, muitas vezes populistas e ineficazes, tende a se intensificar. A discussão sobre segurança pública, portanto, vai além da retórica; ela reflete anseios genuínos da população por mais proteção, mas também o perigo de que propostas simplistas e espetaculares se sobreponham a políticas públicas complexas, baseadas em dados e direitos humanos. O desafio será transpor a superficialidade do discurso eleitoral para um debate sério sobre reformas estruturais, controle institucional e investimentos sociais que abordem as raízes da violência.
A análise da professora Carolina Grillo revela um panorama complexo e desafiador da segurança pública no Brasil. A desconexão entre o controle governamental e a autonomia operacional das polícias, a persistência em modelos ineficazes movidos por retornos eleitorais, e a influência da mídia na formação de narrativas são elementos que perpetuam um ciclo de violência e impunidade. É imperativo que a sociedade e os tomadores de decisão questionem o <i>status quo</i>, buscando alternativas que priorizem a inteligência, o respeito aos direitos humanos e uma reforma institucional profunda. Somente assim será possível construir um futuro onde a segurança seja um direito garantido a todos, e não um privilégio ou uma ilusão. Para aprofundar-se ainda mais neste e em outros temas cruciais para as comunidades, continue navegando pelo Periferia Conectada, seu portal de informação e análise crítica.
Fonte: https://www.folhape.com.br