No intrincado tecido social brasileiro, um estudo recente da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) ilumina uma realidade persistente e frequentemente negligenciada: <b>a esmagadora maioria, 90%, dos cuidadores informais no Brasil são mulheres</b>. Essa descoberta ecoa dados já alarmantes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que indicam que mulheres dedicam, em média, 9,6 horas semanais a mais que os homens em tarefas domésticas e de cuidado. Traduzindo, são mais de mil horas anuais de um trabalho vital para a sociedade, mas que permanece majoritariamente invisível e não remunerado, impactando profundamente a vida profissional, acadêmica e pessoal de milhões de brasileiras.
A invisibilidade e a sobrecarga do trabalho de cuidado
O conceito de 'cuidado informal' abrange a assistência prestada a familiares – sejam filhos, pais, cônjuges, netos ou outros parentes – que necessitam de apoio devido a idade avançada, doença, deficiência ou outras limitações. Este trabalho, embora fundamental para a manutenção da vida e do bem-estar social, opera nas sombras, sem o reconhecimento formal de uma profissão e, consequentemente, sem remuneração, direitos trabalhistas ou previdenciários. A professora Valquiria Elita Renk, do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Políticas Públicas da PUCPR e uma das autoras do estudo, enfatiza que esta é uma realidade global, mas que no Brasil ganha contornos ainda mais acentuados por fortes traços culturais.
Essa sobrecarga impõe consequências severas, especialmente para mulheres e meninas. Muitas veem suas jornadas educacionais interrompidas, suas carreiras profissionais estagnadas ou impossibilitadas de sequer começar. O tempo dedicado ao cuidado significa menos tempo para o estudo, para o trabalho remunerado, para o lazer e, em última instância, para a autonomia financeira e o desenvolvimento pessoal. É um ciclo contínuo, como descreve Valquiria: “Uma mulher para de estudar para cuidar dos irmãos, dos trabalhos domésticos. Faz isso todos os dias e, quando termina, recomeça no dia seguinte. É um trabalho que não tem fim”.
O perfil das cuidadoras e a internalização da 'obrigação'
A pesquisa da PUCPR não apenas quantifica, mas também qualifica a experiência das cuidadoras. Com uma metodologia que incluiu 18 entrevistas aprofundadas com mulheres de áreas urbanas e rurais do Paraná e Santa Catarina, responsáveis pelo cuidado de familiares idosos, doentes ou com deficiência, o estudo traça um perfil revelador. A maioria das cuidadoras são filhas (68%), esposas (21%), netas ou irmãs (5%). Predominam as mulheres adultas entre 41 e 60 anos (43%) e idosas com mais de 60 anos (37%), mas jovens adultas de 21 a 30 anos também representam uma parcela significativa (22%).
Apesar de serem mulheres escolarizadas – 58% com ensino fundamental, 30% com curso superior e 11% com ensino médio – e com diversas profissões (agricultoras, funcionárias públicas, administradoras, aposentadas, entre outras), a dedicação ao cuidado consome seu tempo de descanso e lazer. Um dos achados mais contundentes da pesquisa é a resposta frequentemente encontrada quando perguntadas sobre a razão de assumirem essa carga: “porque é minha obrigação”. Essa frase encapsula a profunda internalização das expectativas de gênero em relação ao papel da mulher na família e na sociedade. O trabalho de cuidado, para muitas, não é uma escolha, mas uma imposição cultural e social, naturalizada a ponto de ser vista como inerente à condição feminina.
O reconhecimento social e as políticas públicas pelo mundo
A invisibilidade e a falta de valorização do trabalho de cuidado contrastam com a sua importância. Ele é, como aponta Valquiria, “fundamental para a sociedade, porque ele mantém a engrenagem funcionando”. Reconhecer esse trabalho vai além da compensação financeira; envolve uma mudança paradigmática na forma como a sociedade enxerga e distribui as responsabilidades de cuidado. A pesquisadora defende que, para além de pagar, é preciso que o trabalho das mulheres cuidadoras seja socialmente reconhecido, possibilitando, por exemplo, que esse período conte para a aposentadoria.
Diversos países já avançaram na criação de políticas públicas de apoio a cuidadores, oferecendo modelos que o Brasil poderia explorar. Na Finlândia e na Dinamarca, por exemplo, os assistentes domésticos e de serviços de cuidado são remunerados pela municipalidade, reconhecendo o serviço como essencial. Outros países europeus como França, Áustria, Alemanha e Holanda também subsidiam ou custeiam alguns serviços de assistência. No Reino Unido e na Irlanda, o Estado compensa a perda de renda de quem presta assistência a um familiar, aliviando o fardo financeiro. A Espanha, com sua Lei de Promoção da Autonomia Pessoal e Atenção às pessoas em situação de dependência, inclui a compensação econômica para cuidadores familiares, demonstrando um compromisso legislativo com a questão.
Na América do Sul, o Uruguai já implementou uma lei que permite à mulher se aposentar mais cedo, considerando o número de filhos, uma medida que tangencia o reconhecimento do trabalho de cuidado parental. No Brasil, embora a Política Nacional do Cuidado tenha sido instituída no final de 2024 e esteja em fase de implementação, Valquiria Renk observa que os avanços são ainda “muito tímidos”. É um cenário que clama por maior celeridade e profundidade na formulação e execução de políticas que não apenas apoiem, mas verdadeiramente valorizem e redistribuam a carga do cuidado.
Um chamado à ação: reconhecer, valorizar e redistribuir o cuidado
O trabalho de cuidado, que vai muito além de ministrar remédios e oferecer alimentação, envolve uma profunda relação afetiva e emocional. É um pilar da coesão social e do desenvolvimento humano que não pode mais ser negligenciado ou atribuído exclusivamente às mulheres, como um “trabalho invisível que ninguém quer fazer e as mulheres fazem no silêncio, na casa delas”. O estudo da PUCPR é um alerta contundente para a necessidade urgente de uma discussão pública mais ampla e de políticas eficazes que promovam a equidade de gênero na distribuição dessas responsabilidades.
A internalização da ideia de que cuidar é uma “obrigação” feminina impede o avanço de uma sociedade mais justa e igualitária. Romper com essa lógica exige o engajamento de todos – famílias, setor público, empresas e a sociedade civil. É preciso que o cuidado seja visto como uma responsabilidade coletiva, compartilhada entre homens e mulheres, e entre as famílias e o Estado. Somente assim poderemos construir um futuro onde o trabalho de cuidado seja reconhecido, valorizado e onde as mulheres tenham a liberdade e as oportunidades de desfrutar plenamente de suas vidas, sem o peso desproporcional de uma carga invisível.
Aprofundar o debate sobre o cuidado informal e suas implicações é crucial para o desenvolvimento de políticas públicas mais inclusivas e equitativas. Mantenha-se conectado ao Periferia Conectada para mais análises e reportagens que desvendam as realidades e os desafios de nossa sociedade, e para encontrar caminhos em direção a um futuro mais justo para todos.