Decisão da SDS: PMs réus pela morte de adolescente em abordagem no Recife não serão punidos administrativamente

Victor Kawan Souza, 17 anos, foi morto com um tiro. Investigação apontou que PMs mentiram em de...

Em um desdobramento que reacende o debate sobre a responsabilização de agentes de segurança pública, a Secretaria de Defesa Social (SDS) de Pernambuco decidiu não aplicar punições administrativas aos dois policiais militares acusados pela morte de Victor Kawan Souza da Silva, um adolescente de 17 anos. O trágico incidente ocorreu durante uma perseguição e abordagem policial em 11 de dezembro de 2021, no bairro de Sítio dos Pintos, Zona Norte do Recife. A decisão da pasta estadual, formalizada por portaria, gerou questionamentos, especialmente porque contraria as provas e acusações apresentadas pelo Ministério Público de Pernambuco (MPPE) na esfera criminal, que ainda está em andamento.

O Processo Administrativo Disciplinar e a Decisão da SDS

Paralelamente ao processo criminal que tramita na Justiça, os policiais militares José Monteiro Maciel de Lima e Clezya Patrícia de Souza Silva eram alvo de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) na Corregedoria da SDS. Este tipo de procedimento interno é crucial para apurar a conduta de servidores públicos e pode resultar em sanções que vão desde advertências até a expulsão da corporação. No entanto, o conselho de disciplina encarregado da apuração optou pela absolvição dos PMs, baseando sua decisão na “insuficiência de provas” para sustentar as acusações no âmbito administrativo. A medida foi chancelada pelo secretário de Defesa Social, Alessandro Carvalho, e publicada oficialmente em portaria na última sexta-feira (6).

Questionada pela coluna Segurança, a assessoria da SDS emitiu uma nota afirmando que o processo foi conduzido de forma técnica, com estrita observância aos ditames legais, e que a absolvição ocorreu devido à alegada carência de provas consistentes. A Secretaria fez questão de salientar que, caso os militares venham a ser condenados na esfera judicial, um novo processo disciplinar poderá ser instaurado, indicando que a decisão administrativa atual não encerra definitivamente a possibilidade de punições futuras, mas apenas no âmbito disciplinar inicial baseado nas evidências disponíveis até então para o PAD.

O Caso Victor Kawan: Uma Perseguição Fatal no Sítio dos Pintos

A morte de Victor Kawan é um triste capítulo que se arrasta na memória de sua família e da comunidade. Segundo relatos de testemunhas colhidos na época, Victor e um amigo estavam em uma motocicleta quando foram interceptados por uma viatura policial. Uma perseguição teve início e, em poucos instantes, o adolescente, que estava na garupa, foi atingido por um disparo. Ele foi socorrido e levado para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), mas infelizmente já chegou sem vida. Este incidente desencadeou uma investigação complexa, marcada por versões conflitantes e fortes acusações.

A Versão Policial e as Alegações Iniciais

Os policiais envolvidos na ocorrência alegaram que o disparo foi efetuado em legítima defesa. De acordo com a versão apresentada pela PM na época, os garotos teriam reagido à tentativa de abordagem. Foi informado que Victor estava sem capacete e que um revólver calibre .38, contendo seis munições, teria sido apreendido na cena. Essa narrativa, comum em casos de confronto policial, sugere uma ameaça iminente que justificaria o uso da força letal. Contudo, essa versão foi veementemente contestada por testemunhas presentes no local, que negaram a existência de reação ou posse de arma por parte da vítima.

A Contranarrativa do Ministério Público e as Denúncias de Fraude

A análise do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) divergiu drasticamente da versão policial. Em denúncia enviada à Justiça em outubro de 2022, o MPPE apontou evidências que sugerem a ocorrência de fraude processual. Segundo a investigação do órgão, os policiais teriam simulado que o adolescente estaria armado, e o corpo de Victor teria sido removido do local do crime sob a pretexto de socorro, o que, na prática, inviabilizou a realização de uma perícia adequada na cena. Exames detalhados realizados pelo Instituto de Medicina Legal (IML) indicaram que a morte da vítima foi praticamente instantânea, questionando a necessidade da remoção emergencial e a alteração da cena do crime.

Diante desses elementos, o MPPE denunciou os policiais por homicídio duplamente qualificado – qualificadoras de motivo torpe e sem chance de defesa para a vítima. Além disso, os agentes também foram denunciados por tentativa de homicídio contra o amigo de Victor, que estava na garupa da moto e, por sorte, não foi atingido. Na ocasião da denúncia, a Justiça, a pedido do MPPE, determinou a prisão dos PMs, que, após um período, passaram a responder ao processo em liberdade. A defesa dos policiais, por sua vez, continua a sustentar a tese de legítima defesa, defendendo a legalidade da ação.

A Complexidade do Processo Judicial: Caminhos e Obstáculos

Mais de três anos após o ocorrido e a denúncia do MPPE, o processo criminal contra os dois policiais militares segue seu trâmite, ainda na fase de audiência de instrução e julgamento. Esta etapa é crucial, pois é nela que são colhidos depoimentos de testemunhas, peritos e dos próprios réus, formando o conjunto probatório que será analisado posteriormente. A 2ª Vara do Tribunal do Júri da Capital agendou para o dia 7 de maio a continuidade da ouvida de testemunhas e o interrogatório dos acusados, um passo fundamental para o avanço do caso.

Somente após a conclusão dessa fase e a apresentação das alegações finais por ambas as partes (acusação e defesa), a Justiça irá decidir se os réus serão submetidos ao julgamento pelo Tribunal do Júri Popular. O júri popular é um pilar da justiça brasileira para crimes dolosos contra a vida, onde cidadãos comuns avaliam as provas e decidem sobre a culpa ou inocência dos acusados. A morosidade do processo, embora muitas vezes reflexo da complexidade e da garantia do amplo direito à defesa, intensifica a angústia da família da vítima e o anseio por uma resolução justa.

A disparidade entre a decisão administrativa da SDS e as acusações do MPPE na esfera judicial é um ponto de atenção. Enquanto a Corregedoria avalia a conduta sob a ótica da disciplina militar e das provas imediatas e internas, o Ministério Público atua como fiscal da lei, buscando a verdade dos fatos para garantir a justiça penal. Essa dualidade de instâncias e critérios pode gerar percepções distintas sobre a responsabilização dos agentes e levanta questões sobre a eficácia dos mecanismos de controle interno.

Reflexões sobre Responsabilidade e Transparência nas Forças Policiais

Casos como o de Victor Kawan ressaltam a importância vital da transparência e da responsabilização nas forças policiais. A existência de corregedorias é fundamental para o controle interno, mas a sua atuação deve ser vista como complementar à supervisão externa exercida pelo Ministério Público e pelo Poder Judiciário. A confiança da população nas instituições de segurança é diretamente proporcional à percepção de que a justiça é aplicada de forma imparcial e eficaz, independentemente da patente ou função do envolvido.

O desafio de apurar crimes que envolvem policiais é acentuado em comunidades periféricas, onde muitas vezes a relação entre moradores e a polícia é complexa e permeada por histórico de tensões. A garantia de que todas as versões serão investigadas minuciosamente, que as provas serão preservadas e que os direitos humanos serão respeitados é essencial para mitigar a desconfiança e assegurar que as famílias das vítimas, como a de Victor Kawan, não se sintam abandonadas em sua busca por justiça. A sociedade clama por clareza e por desfechos que reforcem o compromisso do Estado com a vida e a dignidade de todos os cidadãos.

Acompanhar de perto o desenrolar do processo judicial e a postura das instituições é um papel crucial da imprensa e da sociedade civil. A decisão da SDS de não punir administrativamente os PMs réus pela morte de Victor Kawan levanta uma série de debates necessários sobre os limites da ação policial, a autonomia das corregedorias e a sobreposição de responsabilidades entre as esferas administrativa e criminal. A luta por justiça para Victor Kawan está longe do fim, e cada etapa desse processo é um lembrete da persistente busca por accountability e verdade. Continue conectado com o Periferia Conectada para ter acesso a análises aprofundadas, reportagens exclusivas e o acompanhamento de temas que impactam diretamente a vida nas comunidades.

Fonte: https://jc.uol.com.br

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