Neuromielite Óptica: O Desconhecimento que Atrasa o Tratamento e Agrava a Doença no Brasil

© Tânia Rêgo/Agência Brasil

A neuromielite óptica (NMO), também conhecida historicamente como Doença de Devic ou, de forma mais abrangente, como Distúrbios do Espectro da Neuromielite Óptica (NMOSD), emerge como uma das enfermidades neurodegenerativas mais desafiadoras e graves. Caracterizada por sua natureza autoimune, onde o sistema de defesa do próprio corpo erroneamente ataca células saudáveis, a NMO não possui uma causa conhecida, tornando sua prevenção e compreensão ainda mais complexas. Suas manifestações são predominantemente inflamatórias, focando seu ataque destrutivo sobre o nervo óptico, o cérebro e, de maneira crítica, a medula espinhal, elementos vitais do sistema nervoso central. As consequências podem ser devastadoras, variando desde a perda severa da visão até a completa paralisia de membros, comprometendo drasticamente a qualidade de vida dos pacientes.

O mecanismo por trás da NMO é o que a torna particularmente insidiosa. Em vez de proteger o organismo contra invasores externos, o sistema imunológico ataca por engano as bainhas de mielina – o revestimento protetor dos neurônios – e as células que as produzem, especialmente as células chamadas astrócitos, que expressam uma proteína aquaporina-4 (AQP4). Este ataque direcionado desencadeia inflamações que se manifestam em surtos ou crises agudas. Essas crises, imprevisíveis em sua ocorrência e intensidade, podem se repetir ao longo da vida do indivíduo, acumulando danos neurológicos irreversíveis a cada episódio e progredindo a doença, como apontado pela NMO Brasil, uma entidade crucial formada por pacientes e familiares que se unem para oferecer acolhimento, disseminar conhecimento e advogar por melhorias na atenção à doença.

O Papel Crucial da NMO Brasil na Luta por Consciência e Apoio

A NMO Brasil, nascida da necessidade e da experiência direta de pacientes com neuromielite óptica, desempenha um papel multifacetado e indispensável no cenário brasileiro de doenças raras. Além de ser uma rede de apoio essencial, acolhendo e compartilhando informações vitais entre pacientes e seus familiares, a entidade assume um compromisso ativo na conscientização. Sua missão se estende a informar e educar a sociedade civil e a classe política sobre as complexidades da NMO e de outras doenças de seu espectro, buscando desmistificar a condição e ressaltar sua gravidade. Mais do que isso, a organização trabalha em conjunto com a categoria médica, fornecendo apoio e recursos para aprimorar o diagnóstico e manejo clínico da doença, um esforço fundamental em um contexto de conhecimento limitado.

O Desafio do Diagnóstico: Um Obstáculo Prejudicial à Saúde

Um dos maiores entraves no manejo da neuromielite óptica no Brasil é o profundo desconhecimento sobre a doença, tanto por parte do público geral quanto de muitos profissionais de saúde. Por décadas, a NMO foi equivocadamente classificada como uma variante da Esclerose Múltipla (EM), uma doença neurodegenerativa mais conhecida. Apesar de ambas afetarem o sistema nervoso central, suas causas, mecanismos de ataque imunológico, áreas cerebrais preferencialmente afetadas, evolução e, crucialmente, seus tratamentos são distintos. O reconhecimento dessa distinção é vital, pois terapias eficazes para Esclerose Múltipla podem, em alguns casos, até mesmo agravar a NMO, resultando em danos adicionais e desnecessários aos pacientes.

Essa confusão histórica e a falta de informação atualizada ainda resultam em inúmeros diagnósticos imprecisos de Esclerose Múltipla para indivíduos que, na verdade, vivem com neuromielite óptica. Daniele Americano, presidente da NMO Brasil e ela própria diagnosticada com a doença em 2012, relata que o desconhecimento generalizado é um dos principais catalisadores do agravamento dos casos e do atraso inaceitável no início do tratamento adequado. Em seu depoimento, Daniele descreve a manifestação súbita da doença, um cenário comum para muitos pacientes. Embora a NMO possa atingir qualquer faixa etária, observa-se uma maior prevalência em mulheres e na população afro-brasileira, com as primeiras manifestações ocorrendo frequentemente entre os 30 e 40 anos de idade, impactando indivíduos em seu período mais produtivo da vida.

A Rota Obstruída para um Diagnóstico Preciso

A Organização Mundial da Saúde (OMS) categoriza como doença rara aquelas que afetam até 65 pessoas em cada grupo de 100 mil indivíduos. No Brasil, a estimativa da NMO Brasil é de que existam entre 3 mil e 4 mil pessoas com a doença. Considerando a população brasileira, essa prevalência coloca a NMO firmemente dentro da definição de doença rara, o que, por si só, já justifica o menor conhecimento e a escassez de recursos dedicados. Para um diagnóstico correto e definitivo, é imprescindível a avaliação de neurologistas especializados e, em muitos casos, de um neuro-oftalmologista, dada a frequente lesão do nervo óptico. No entanto, a realidade brasileira mostra que o acesso a esses especialistas ainda é uma exceção, não a regra. A demora na identificação da NMO impede a intervenção precoce, que é fundamental para mitigar os danos permanentes causados pelas crises e garantir uma melhor perspectiva de longo prazo para os pacientes.

A Luta pelo Acesso ao Tratamento: Barreiras no Sistema Único de Saúde

Além do desafio do diagnóstico, a falta de acesso a tratamentos específicos e eficazes no Sistema Único de Saúde (SUS) representa outra barreira intransponível para a maioria dos pacientes. Daniele Americano ressalta que cerca de 90% dos indivíduos com NMO são forçados a recorrer a ações judiciais para conseguir o direito aos medicamentos necessários. Este é um caminho tortuoso e exaustivo, que adiciona um ônus financeiro e emocional significativo a pacientes e famílias já fragilizados pela doença.

Medicamentos Essenciais e a Burocracia da Incorporação

A complexidade no acesso aos medicamentos é agravada pela distinção entre tratamentos “off label” e “on label”. Os medicamentos “off label” são aqueles que, embora possam ser prescritos por médicos, não possuem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) com a indicação específica para a neuromielite óptica em sua bula. Já os medicamentos “on label” são aqueles especificamente aprovados para a NMO pelo órgão regulador, com eficácia e segurança comprovadas para a doença. Apesar da existência de tratamentos “on label” altamente eficazes, como o Enspryng (Satralizumabe), Uplizna (Inebilizumabe) e Ultomiris (Ravulizumabe), nenhum deles está atualmente disponível no SUS.

O Ministério da Saúde, através da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), analisou a inclusão do inebilizumabe e do satralizumabe em 2024 e 2025, respectivamente. No entanto, ambos tiveram parecer negativo para incorporação, conforme informado pelo ministério à Agência Brasil, citando critérios de custo-efetividade. Para o ravulizumabe, o governo federal declarou não ter recebido qualquer pedido de avaliação para a indicação no tratamento da neuromielite óptica. Essa lacuna entre a existência de tratamentos aprovados e sua disponibilização pública perpetua o sofrimento e a progressão da doença em muitos pacientes brasileiros, forçados a uma batalha legal para ter acesso à saúde.

Além dos Medicamentos: A Importância do Tratamento Multidisciplinar

Daniele Americano enfatiza que o tratamento da neuromielite óptica vai muito além da administração de medicamentos. Um tratamento multidisciplinar é uma necessidade premente dos pacientes, mas, lamentavelmente, não é considerado prioridade no SUS. A presidente da NMO Brasil destaca a importância vital de uma equipe de profissionais que inclua psicólogos, fisioterapeutas e assistentes sociais. "É um tratamento medicamentoso e também multidisciplinar que é de extrema importância", afirma Daniele.

Cada um desses profissionais desempenha um papel insubstituível. A <b>fisioterapia</b> é crucial para prevenir a atrofia muscular e manter a mobilidade, especialmente para pacientes que utilizam cadeiras de rodas ou têm movimentos limitados. O <b>apoio psicológico</b> é fundamental para lidar com o impacto emocional de um diagnóstico de uma doença rara, crônica e altamente incapacitante, que frequentemente leva a quadros de depressão, ansiedade e isolamento social. Já o <b>assistente social</b> auxilia na navegação por direitos, benefícios sociais e na reintegração ou adaptação à vida profissional e social, particularmente importante para pacientes em idade produtiva que podem precisar parar de trabalhar devido à progressão da doença. "Se os pacientes tivessem acesso a esses profissionais, a qualidade de vida deles poderia ser um pouco melhor", conclui Daniele Americano, sublinhando que a falta de um cuidado integral impede que muitos pacientes atinjam seu potencial máximo de recuperação e bem-estar.

A jornada de um paciente com neuromielite óptica no Brasil é marcada por desafios em todas as frentes: do desconhecimento inicial que retarda o diagnóstico correto, passando pela burocracia e custo para acessar tratamentos essenciais, até a carência de um suporte multidisciplinar que ofereça dignidade e qualidade de vida. É imperativo que haja um esforço conjunto da sociedade, dos profissionais de saúde e das autoridades para mudar esse cenário, garantindo que a raridade da doença não signifique a raridade da esperança e do cuidado. O Periferia Conectada continuará acompanhando essas discussões e informando sobre os avanços e as lutas das comunidades. Explore mais artigos em nosso portal para se aprofundar em temas relevantes que impactam a vida de milhões de brasileiros!

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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