Em um movimento que promete redefinir a matriz energética brasileira, o etanol, combustível tradicionalmente associado ao setor automotivo, acaba de inaugurar uma nova e estratégica rota: a geração de energia em usinas termelétricas. O epicentro dessa transformação é o complexo portuário de Suape, em Pernambuco, onde a termelétrica Suape Energia, em parceria com a gigante finlandesa Wärtsilä, deu início aos testes definitivos de um motor capaz de operar com etanol. Este projeto piloto não apenas posiciona o Brasil na vanguarda das soluções energéticas renováveis para a geração termelétrica, mas também abre um horizonte vasto para a sustentabilidade e segurança do sistema elétrico nacional, desafiando paradigmas e mostrando o potencial inexplorado de uma das cadeias produtivas mais robustas do país.
Um Marco na Geração de Energia Nacional
A iniciativa em Suape surge de uma necessidade premente da Suape Energia, cujo contrato de 15 anos de fornecimento de energia térmica ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) está chegando ao fim. Em busca de uma solução inovadora e sustentável para garantir a continuidade de seus serviços e disputar novos contratos, a empresa se voltou para a Wärtsilä, fabricante dos motores já em uso na planta. A proposta era audaciosa: converter motores a óleo combustível para operar com etanol. Em 28 de maio, um grupo de empresários produtores de etanol de São Paulo e dirigentes da Copersucar visitou o local, evidenciando o interesse crescente do setor sucroalcooleiro neste novo mercado.
A substituição do óleo combustível pelo etanol representa um avanço significativo, não apenas pela redução da pegada de carbono, mas também pela valorização de um recurso nacional renovável. Esta mudança na fonte de energia para as termelétricas em horários de pico ou em situações de baixa disponibilidade de outras fontes intermitentes, como eólica e solar, é um passo fundamental para equilibrar a necessidade de energia firme com as metas de descarbonização e transição energética que o Brasil e o mundo buscam.
A Conquista da Confiança Internacional pela Expertise Brasileira
Inicialmente, a Wärtsilä, com sede na Finlândia, demonstrou cautela. A principal preocupação dos engenheiros finlandeses residia nas condições de segurança para transporte, armazenamento e manejo do etanol em larga escala para fins de geração elétrica. Contudo, a robusta e centenária experiência brasileira com o etanol foi crucial para dissipar essas dúvidas. Foi necessário convidar os especialistas da Wärtsilä ao Brasil para demonstrar a vasta infraestrutura e o conhecimento técnico acumulado ao longo de décadas.
O Brasil não apenas utiliza etanol em veículos automotores há mais de 100 anos, mas também desenvolveu uma cadeia industrial completa e é o inventor do motor flex, presente em aproximadamente 85% da frota nacional. Além disso, o país se destaca como o segundo maior produtor mundial de etanol. A vasta rede de 35 mil postos de abastecimento, supridos diariamente por caminhões-tanque, serviu como prova irrefutável da capacidade logística e da segurança na manipulação do combustível. Diante dessa realidade, os finlandeses não só compreenderam a escala do negócio no Brasil, mas também toparam converter um de seus motores de maior sucesso global, o W9L2M, originalmente movido a óleo combustível, para operar com etanol, enxergando uma oportunidade de mercado mundial com um novo e atraente discurso 'verde'.
Impacto e Perspectivas para Suape Energia e Wärtsilä
Para a Suape Energia, o sucesso desta fase de testes é apenas o começo. A meta ambiciosa é, nos próximos anos, converter suas 17 máquinas para operar com etanol, preparando-se para a disputa de novos e importantes contratos de fornecimento de energia junto ao ONS. Essa estratégia posiciona a empresa como pioneira e líder em inovação no segmento de geração termelétrica limpa no país.
Para a Wärtsilä, a colaboração brasileira abriu uma oportunidade sem precedentes: ter em seu portfólio um motor térmico movido a combustível renovável, em sintonia com as crescentes demandas ambientais e a busca por soluções mais sustentáveis globalmente. As duas empresas têm um ano para formalizar os manuais de uso e procedimentos, um período essencial para consolidar a operação e pavimentar o caminho para a expansão do projeto. Durante a solenidade de apresentação do Projeto Etanol da Suape Energia, o motor já estava pronto para o comissionamento, apto a gerar quatro megawatts de energia elétrica com etanol fornecido pela Vibra, que possui uma grande base em Suape, reforçando a sinergia da cadeia produtiva.
O Novo Cenário para o Mercado de Termelétricas no Brasil
José Faustino Cândido, CEO da Suape Energia, e Adriano Marcolino, da Wärtsilä, os líderes à frente do projeto como cliente e fornecedor, respectivamente, estão convictos de que o motor a etanol instalado em Suape inaugura um novo cenário para o mercado de termelétricas no Brasil. O país conta com milhares de motores gerando energia firme em horários de pico, e a conversão para etanol oferece uma alternativa viável e ecologicamente superior ao óleo diesel e outros combustíveis fósseis. A ideia, que saiu do papel após várias viagens à matriz da Wärtsilä em Helsinque nos últimos dois anos, representa um avanço tecnológico e estratégico de grande magnitude.
Um Novo Cliente e o Valor Estratégico do Etanol
Para os dirigentes do setor sucroalcooleiro, a perspectiva de fornecer etanol para usinas termelétricas é um acontecimento de extraordinário interesse. Henrique Araújo, diretor de Relações Institucionais da Copersucar, ressaltou a importância de colocar o etanol em mais um segmento industrial estratégico, consolidando-o após seu sucesso no setor automobilístico e, mais recentemente, sua consideração para uso em motores de navios. Essa diversificação de demanda garante maior estabilidade e crescimento para a indústria do etanol, incentivando investimentos e inovações.
Reive Barros, professor e consultor estratégico do projeto e diretor da Acrópolis Energia, salienta que o uso do etanol em termelétricas é a expressão máxima do conceito de energia renovável aplicada a um segmento que, no Brasil, historicamente sofre de certo 'preconceito'. Esse preconceito é muitas vezes injustificado, considerando o papel vital das termelétricas na garantia de energia firme ao mercado durante os horários de carga máxima diária.
Desmistificando as Termelétricas e a Importância da Energia Firme
O alerta de Reive Barros é fundamental para entender a complexidade da matriz energética brasileira. O Brasil, de fato, desenvolveu um forte preconceito contra as usinas termelétricas, frequentemente associadas à poluição e ao uso de combustíveis fósseis. No entanto, é crucial reconhecer que fontes renováveis intermitentes, como a energia eólica, solar e a geração distribuída (GD) em telhados, não estão disponíveis 24 horas por dia. Nessas lacunas, a energia gerada por hidrelétricas e termelétricas movidas a gás, biomassa, carvão e óleo diesel é indispensável para a estabilidade e segurança do sistema elétrico.
A função primordial das termelétricas é prover a chamada 'energia firme', ou seja, energia que pode ser gerada a qualquer momento, independentemente das condições climáticas, para suprir a demanda. A introdução do etanol como combustível para essas usinas é, portanto, uma quebra de paradigma estratégica. Ela permite que as termelétricas continuem desempenhando seu papel essencial na segurança energética, mas com um impacto ambiental drasticamente reduzido, mitigando o 'preconceito' e alavancando a transição para uma matriz mais limpa e resiliente, com um mercado promissor, especialmente na região Nordeste.
Benefícios Ampliados: Economia, Meio Ambiente e Segurança Energética
A adoção do etanol em termelétricas traz uma tríplice vantagem para o Brasil. Do ponto de vista ambiental, representa uma redução significativa nas emissões de gases de efeito estufa, contribuindo para as metas climáticas do país. Economicamente, gera um novo e robusto mercado para a cadeia sucroalcooleira, impulsionando a produção, o emprego e a inovação no setor. Regionalmente, como no Nordeste, a perspectiva de um motor a etanol pode fomentar o desenvolvimento econômico e industrial, dada a existência de usinas de cana-de-açúcar na região.
Em termos de segurança energética, a diversificação da matriz com uma fonte renovável e nacional diminui a dependência de combustíveis fósseis importados, tornando o sistema mais autônomo e resiliente a choques externos. Este projeto em Suape é um testemunho da capacidade brasileira de inovar e de integrar a sustentabilidade com a robustez necessária para atender às crescentes demandas energéticas do país.
A inovação de Suape transcende o âmbito local, estabelecendo um precedente valioso para o futuro da energia no Brasil e no mundo. A adoção do etanol em termelétricas não é apenas uma notícia, mas um sinal claro de que a criatividade e o compromisso com a sustentabilidade podem desbravar novos caminhos. Quer continuar explorando as inovações que transformam a realidade da periferia e do Brasil? Navegue pelo Periferia Conectada e descubra mais reportagens que conectam você ao que há de mais relevante em tecnologia, meio ambiente e desenvolvimento social.
Fonte: https://jc.uol.com.br
